O Governo Sócrates faz 3 anos. São três anos de reformas, algumas bem aceites, outras totalmente rejeitadas pelas populações e pelas classes em causa. Não precisamos de fazer um grande esforço de memória para nos lembrarmos das populações avessas ao fecho das maternidades e urgências, de recordar a irritação dos juízes pela nova legislação sobre as férias judiciais e, claro, a irrepreensível amargura dos professores expressa nesta última manifestação.
Inicialmente, Sócrates passou a ideia de um homem firme e decidido, com as melhores intenções para o país e que seria com ele que as coisas iriam mudar. Aceitamo-lo e fomos tolerando alguma arrogância e prepotência por acharmos, essencialmente, que tinha de ser esse o caminho – muito distante do diletante Santana.
O nosso primeiro fez do uso e da manipulação da imprensa uma arma, um poderoso meio que conseguiu usar em seu proveito. Mas apenas o conseguiu durante algum tempo. Cedo se descobriram algumas inconsistências – vá, e estou a ser simpático – no seu percurso académico, algumas falcatruas na sua vida profissional e algumas inverdades na sua carreira política. Isto é, a água que o Zé bebia não era tão cristalina quanto queria fazer crer.
Daí para a frente, o Sócrates corajoso, firme de espírito e decidido começou a assumir uma postura persecutória contra aqueles que traziam a público algumas das proezas que ele preferiria ter sido mantidas ocultas, e foi por essa altura que começaram as reformas em força, as reformas mais polémicas e indesejadas pela população.
Assim, o Governo deixou de ter qualquer programa de comunicação e, simplesmente, passou a legislar. A questão dos professores é o resultado mais flagrante de uma ausência de uma política de comunicação pois tivesse o Ministério tido a preocupação em falar com os docentes, com os pais, com as freguesias e, vá, os sindicatos nada disto teria acontecido.
Como se pode compreender, um professor quer ter uma palavra a dizer na reforma que vai condicionar a sua actividade daqui para a frente. Legislar sem ter em conta os mais directamente visados é errado e, pior do que isso, antidemocrático. A democracia pressupõe o diálogo e a conversa como as suas fundações, a sua base e essência. Sem elas, vivemos em tirania, subjugados por regimes despóticos e prepotentes.
Em matéria de poder político, é fácil parecer-se corajoso quando, na verdade, se está a ser cobarde. E Sócrates é, exactamente, isso: cobarde, pois quando colocado sobre escrutínio, quando se colocou em causa o rumo do seu Executivo ele afrouxou, tornou-se medroso, temeroso e poltrão. Deixou de ser o bem para o país a dirigir a sua política reformista, para a mesma passar a ser um mero exercício de poder.
Como um rufia no pátio da escola, o governo da maioria vai legislando para mostrar aos outros que ainda mexe, imiscuindo-se na vidinha dos simplórios, daqueles que apenas querem fazer o seu trabalho e ir para casa.
E isto não é coragem, como muitos ainda querem fazer pensar. Isto, legislar sem diálogo, reformar sem consideração pelos visados, é cobardia política.